O Observatório Solar Nacional da Fundação Nacional de Ciências dos EUA (NSF NSO) anunciou, em 5 de agosto de 2026, uma descoberta que pode mudar a física solar. Usando o Telescópio Solar Daniel K. Inouye, o mais potente do mundo, uma equipe internacional encontrou a assinatura da instabilidade de Kelvin-Helmholtz (KHI) na superfície do Sol.

Os padrões, pequenos redemoinhos semelhantes a vórtices, foram vistos na fotosfera — a camada visível do astro. A pesquisa, publicada na revista Nature, é fruto da colaboração entre o NSO, o Observatório de Alta Altitude (HAO) do NCAR e o Instituto Max Planck de Pesquisa do Sistema Solar (MPS), da Alemanha.

O telescópio, instalado no topo do Haleakalā, no Havaí, permitiu a primeira confirmação experimental de um fenômeno previsto há mais de um século. A instabilidade de Kelvin-Helmholtz ocorre quando dois fluidos deslizam um sobre o outro em velocidades diferentes, criando cisalhamento na interface e gerando vórtices que lembram ondas quebrando.

Desde a formulação original por Lord Kelvin e Hermann von Helmholtz, por volta de 1870, a KHI foi observada em diversos contextos — de nuvens na Terra a atmosferas de Júpiter e Saturno. Agora, pela primeira vez, foi identificada de forma inequívoca na fotosfera solar, graças à alta resolução espacial do Inouye.

Os cientistas acreditam que esses vórtices podem ser a chave para entender por que a atmosfera externa do Sol é tão quente e como a energia magnética se acumula e se move. Essa energia alimenta explosões solares, que podem afetar satélites, redes elétricas e sistemas de comunicação na Terra.

A teoria principal para o acúmulo de energia magnética é o ‘flux braiding’ — o entrelaçamento das linhas de campo magnético, como tranças de cabelo. Quando a tensão é liberada rapidamente, ocorre a reconexão magnética, que dispara erupções. Mas o que inicia o entrelaçamento ainda era um mistério.

A nova descoberta sugere que os redemoinhos de KHI, que aparecem constantemente nas bordas de regiões magnéticas, podem ser o ‘motor’ que torce as linhas de campo e dá início ao processo. ‘Estamos apenas no começo de reconhecer o impacto da descoberta da instabilidade de Kelvin-Helmholtz na conexão entre o movimento do plasma magnetizado e o transporte e liberação de energia na atmosfera solar superior’, disse o Dr. Friedrich Wöger, cientista sênior do NSO.

A equipe comparou as observações do Inouye com simulações de computador da fotosfera, usando o código MURaM, desenvolvido por equipes do HAO e do MPS. As simulações, baseadas em equações físicas fundamentais, permitem visualizar processos que não podem ser medidos diretamente.

Os resultados foram notáveis: dezenas de estruturas semelhantes a vórtices apareceram tanto nas observações quanto nas simulações, com características e dinâmicas quase idênticas. Por exemplo, a distância média entre os vórtices — o ‘comprimento de onda da instabilidade’ — variou entre 50 e 65 km em ambos os casos.

‘É muito empolgante ver que as observações de mais alta resolução da fotosfera revelaram um novo regime dinâmico na forma de vórtices KH nas bordas das concentrações de campo magnético’, afirmou o Dr. Matthias Rempel, cientista sênior do HAO. ‘Essas observações também fornecem a validação de mais alta resolução das simulações magnetohidrodinâmicas solares até hoje, e a concordância nos detalhes físicos é impressionante.’

A descoberta abre uma nova janela para a física fundamental do Sol e de outras estrelas. O Dr. David Boboltz, diretor adjunto do NSO, destacou: ‘Acreditamos que a descoberta da instabilidade de Kelvin-Helmholtz na fotosfera solar, apoiada pela análise de simulações numéricas, é um grande passo em nossa compreensão da dinâmica e evolução do plasma solar e estelar, e servirá de base para futuras descobertas.’

O estudo também ressalta as capacidades ímpares do Telescópio Inouye, que continua a revelar detalhes inéditos do Sol. Compreender esses processos é essencial para prever o clima espacial e proteger nossa infraestrutura tecnológica.

A pesquisa foi divulgada pelo NSF NSO, que opera o telescópio no Havaí. Os cientistas esperam que os novos dados ajudem a desvendar os mistérios da atividade solar e seus impactos na Terra.