Entre 1976 e 1991, o Reino Unido viveu a era mais fértil da sua cultura de sorvete. Quase tudo que você encontra hoje num freezer britânico nasceu nesse período, segundo o site vittlesmagazine.com, que publicou um ensaio da escritora Ruby Tandoh sobre o assunto.

O pontapé inicial foi uma aposta simples: empacotar o icônico cone de sorvete. A ideia era que qualquer loja tivesse um corneto pré-pronto, perfeito, com calda que não congela nem escorre, e sorvete que não cai do cone.

Um fabricante italiano chamado Spica já tinha a fórmula em 1959. O segredo estava no cone: wafer crocante com corte enviesado, revestido internamente com chocolate e óleo de coco, criando uma barreira à prova de umidade. O sorvete também era especial: uma emulsão de gordura vegetal compacta, que derrete rápido e liso.

Na Itália, o produto fez sucesso. Mas no Reino Unido, a estreia nos anos 1960 fracassou. A rotatividade numa loja de esquina em Bolton não era como a de Rimini, e o sorvete não sobrevivia ao transporte.

Foram necessários dez anos de ajustes químicos para chegar ao ponto ideal: um sorvete com propriedades de Teflon, resistente ao freezer, mas que derrete na boca. A Unilever, dona da Wall’s, comprou a receita. No verão de 1976, o Cornetto chegou às lojas britânicas.

Foram quase 7 milhões de Cornettos vendidos naquele verão, um dos mais quentes já registrados. No mesmo ano, as redes Baskin-Robbins e Dayvilles entraram no mercado, acostumando o público a pagar até 25p por um cone. A Wall’s investiu em marketing com a música ‘Just One Cornetto’.

Em uma década, o Cornetto ganhou versões de morango, menta e rum com passas, vendendo 70 milhões de unidades por ano. Tornou-se o sorvete mais popular da história britânica.

A partir daí, uma onda de inovações: Mini Milks (1976), Funny Feet (1980), Twister (1982), Viennetta (1982), Calippo (1982), Feast (1983), Mars (1988), Carte d’Or (1990) e, coroando o período, o Magnum (1990), hoje o sorvete mais popular do mundo.

Essa explosão não é misteriosa. Inovação em escala industrial vem em ondas, impulsionada por mudanças econômicas, fusões e aquisições. Nos anos 1930, foi o chocolate, com Mars, Snickers, KitKat e outros. Recentemente, vimos o mesmo com sabores de batata frita.

A era de ouro do sorvete durou apenas quinze anos, mas foi a maior explosão da cultura alimentar industrial britânica em meio século.

Antes disso, no final do século XIX, vendedores italianos ofereciam ‘penny lick’ nas ruas, com copos reutilizados e limpos com pano velho. Nos anos 1930, a Lyons fazia bolos de sorvete elaborados, como o Trocadero Wonder Gateau.

Na Segunda Guerra, a Wall’s, originalmente fabricante de salsichas, já vendia sorvete de triciclos. Mas a guerra restringiu o uso de laticínios e açúcar. Nos anos 1950, o sorvete era básico: tijolos, copos e picolés retangulares.

Com o fim do racionamento em 1954, o poder de compra aumentou. As frotas de triciclos deram lugar a vans e lojas de conveniência. A Wall’s, que vendia 90% na rua, passou a vender 90% em freezers de lojas físicas, com exclusividade.

Os primeiros sorvetes tecnologicamente avançados eram simples, como o Mivvi da Lyons Maid, de 1959. Mas já usavam tecnologias complexas para a época.

A lição dessa história, segundo vittlesmagazine.com, é que a inovação alimentar em escala industrial acontece em surtos rápidos, transformando hábitos para sempre. O sorvete britânico moderno é fruto desses quinze anos dourados.