A teoria musical tradicional é comparada a livros de medicina medieval: cheia de superstições, símbolos sem justificativa e frases em latim. É o que afirma Daniel Wilkerson, autor do artigo ‘Harmony Explained: Progress Towards a Scientific Theory of Music’, disponível no arxiv.org desde 2012.

O trabalho propõe uma abordagem científica para entender como a harmonia realmente funciona. Em vez de se basear apenas na física do som, Wilkerson considera também os fenômenos computacionais de qualquer máquina que precise dar sentido ao som — incluindo o cérebro humano.

A partir dessa abordagem, o autor deriva três fenômenos fundamentais da música: a escala maior, o dicionário padrão de acordes e a diferença de sensação entre as tríades maior e menor.

Segundo o artigo, a escala maior já havia sido derivada de forma semelhante por outros pesquisadores, como Helmholtz (1863) e Birkhoff (1933). No entanto, Wilkerson afirma que a derivação do dicionário padrão de acordes e a explicação da diferença entre as tríades maior e menor são originais.

O texto critica a teoria de Hermann Helmholtz, físico do século XIX considerado autoridade no assunto. Helmholtz afirmava que notas estão em ‘concordância’ porque o som produzido ao tocá-las juntas é ‘menos pior’ do que o de outras combinações. Wilkerson aponta que, nessa lógica, adicionar mais notas só pode piorar o resultado — umas menos que outras — e, portanto, o som mais harmonioso seria uma única nota isolada. Isso tornaria a harmonia inexistente como fenômeno musical.

O artigo foi escrito em estilo deliberadamente simples e coloquial, evitando linguagem formal desnecessária. O autor declara que pretende que o texto seja satisfatório para cientistas como contribuição original à ciência e à arte, mas também acessível a músicos e curiosos que sempre se perguntaram sobre as propriedades da música tonal e se frustraram com a falta de exposições claras sobre o assunto.

A versão mais recente do artigo, revisada em junho de 2014, está disponível no arxiv.org. O trabalho não possui PDF, mas pode ser visualizado em outros formatos no site.

A proposta de Wilkerson insere-se em uma tradição de tentativas de explicar a música de forma científica, mas inova ao incorporar a computação como elemento central. Para ele, a compreensão da harmonia não pode ignorar como o cérebro processa o som.

O artigo é um convite a repensar a teoria musical a partir de bases mais sólidas, longe de superstições e símbolos sem significado. Uma leitura recomendada para quem busca entender a música além do senso comum.